O Ator

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O Pequeno Grande Ator

Talvez uma das histórias mais curiosas sobre Ary aconteceu no ano de 1937, no município de Entre Rios, no Paraná. Naquela época, Ary era apenas um garoto curioso, mas a valentia já era de gente grande. E de alguma forma, naquele momento, um fato vivido por uma criança desenvolveria um registro emocional definitivo, que seria acessado ao longo de toda uma vida.

Havia naquela cidade um homem, um andarilho, que usava uma barba bastante grande. Ele vestia um poncho escuro que o cobria por completo, protegendo-o do frio. E ao andar, apoiava-se num cajado. Era uma figura muito estranha e bizarra para a maioria das pessoas. Ary dizia que todos no lugarejo tinham medo daquele sujeito; que ele era um louco. Durante o dia, aparecia pouco na rua e não falava com ninguém. À noite, dormindo em algum refúgio qualquer, costuma ter pesadelos horríveis e gritava alto, feito o forte brame de um urso. Urrava como se fosse um animal ferido, ou alguém que pedisse ajuda. Segundo Ary, quando as crianças perguntavam algo sobre aquele estranho homem, quase uma personagem, todos ficavam furiosos e sua mãe ficava muito assustada.

A casa onde a família vivia, ficava de frente para uma grande praça arborizada. A sala tinha duas janelas que davam de frente para a rua, com vidros do lado de fora, à moda antiga, e madeira do lado de dentro. Um dia, sozinho na sala, Ary ouviu os urros daquele homem, que gritava cada vez mais alto, cada vez mais perto. Havia apenas um lampião aceso ao lado. Sua mãe estava em outro cômodo da casa.

Em certo momento, um pouco travesso, Ary sobe numa cadeira para olhar pela janela. Devagar abre uma parte da veneziana e vê, colado ao vidro, aquele homem. Ambos ficaram ali, com olhares congelados, hipnotizados. Em momento algum aquele garoto teve medo, ou foi tomado pelo susto. Ele se aproximou um pouco mais e ficou observando as feições do transeunte. Estavam seduzidos pelos leves movimentos esboçados nas pequenas expressões de cada rosto, levemente iluminadas pela luz do lampião. À medida que eles se olhavam, Ary tentava tocar a face do sujeito através do vidro. “Quis tocá-lo, fazer um carinho. Talvez aquele homem nunca tivesse recebido um carinho. Foi fascinante”, disse Ary. E ele, num profundo silêncio, derramou duas lágrimas. Uma vinda de cada olho.

Num repente, a mãe entrou na sala e de súbito deu um grito. Ela não fez aquilo por mal. Foi apenas um susto. Num instinto de proteção, se apressou em fechar a janela por conta da criança. E o homem de cabeça baixa foi embora, noite adentro. Ary nunca mais o viu.

Tempos depois Ary compreendeu que aquele acontecimento despertou algo antes adormecido. Dizia que aquele sentimento provavelmente fosse intrínseco nele, que deveria ser básico no ator, pudera na maioria dos homens. Mais tarde, no entanto, aquilo viria a despertar a essência do seu trabalho do Ary, fazendo dele um homem sensível e observador. “Talvez foi ali que começou a surgir o ator. Foi um momento revelador”, observou Ary. O inquietante encontro da alma humana.

O Ator

Certo dia ouvi Ary dizer que talvez fosse Artur da Távola, pseudônimo do jornalista Paulo Alberto Monteiro de Barros, quem mais tenha se aproximado da definição que ele próprio fazia de si. Definir Ary não era realmente uma tarefa fácil. Talvez antes, Barros tivesse imaginado um belo quadro, talvez um Monet, onde todas as regras do impressionismo foram rompidas, onde os contrastes do azul eram mais azuis, onde a luz refletia-se ainda mais ensolarada, onde os movimentos das pinceladas serviam-se da liberdade da infinita criação.

Barros, no entanto, definiu Ary da seguinte forma: “Os atores são como pintores da alma. Possuem uma estética dentro da qual exercitam os seus valores. Variam sobre o mesmo tema, procura obsessiva da verdade e iluminações dentro de uma atmosfera reiterativa. Cada artista, aliás, é assim. Escreve, pinta ou representa centenas de vezes a mesma obra. Em cada tentativa, novos ângulos, renovação, descobertas, evolução.”

É comum, dada a proximidade entre analisado e analisando, encontrar traços pessoais das inúmeras personagens vividas por ele. Lógico, o ator, seu corpo, sua voz, sua fala, seus trejeitos, são instrumentos da composição; as personagens vivem, ainda, através de suas almas, às vezes bastante nítidas, e noutras vezes de forma subjetiva.

“Ary Fontoura escolheu certa tipologia para caracterizar a sua estética. É dos raros atores brasileiros que optaram por traços expressionistas, presentes apenas nos artistas que diretamente fazem humor. Ele obtém, via caricatura, a representação pungente dos solitários, mercê do desencanto, da solércia, dos interiores secos da verdadeira ternura humana em que vivem retidos”, disse o jornalista.

Perguntei ao Ary como se dava o processo da escolha das suas personagens e ele me respondeu: “Não sei se na televisão, mas no teatro certamente não sou eu quem escolhe as personagens que vou representar, as histórias que irei contar. Pelo contrário, são eles que me escolhem.”

Para confirmar a beleza da obra do Ary e do meu testemunho desses múltiplos de criação, como numa palheta de cores intensas, vou citar novamente Barros: “Ary Fontoura realiza (sua arte) com implacabilidade. Dele transpira (conspira) tédio, náusea, megatons de depressão transmutados em representação do lado menor do existir do qual ninguém se livra, salvo através de luta, contrição e honrado mergulho no próprio desvario.”

Joseph Meyer

TÁVOLA, Artur da. O Ator
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984

Joseph Meyer é jornalista e autor do site.

Fotos: Divulgação Tv Globo

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